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A Guerra da Ideologia Política

Direita ou esquerda: de que lado da história você está?

Em tempos de eleições, o brasileiro, mesmo que com todas as suas forças, não encontra maneiras de fugir de dois caminhos ideológicos chamados de Esquerda e Direita mesmo que muitos optem pelo atalho chamado Centro.

Neste cenário, tomar uma posição definirá a ética e, relativamente, o caráter de um indivíduo. Decidir entre a Direita, a Esquerda e o Centro, pode ser exemplificado como objetos colocados dentro de uma caixa. No lado de fora dessa caixa, encontramos etiquetas, e em cada etiqueta existe uma lista de características padronizadas e pré-definidas para caracterizar o objeto que está dentro da caixa.

Assim como no nosso país impera a democracia – sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes –, esse texto tem o intuito de expor as ideias desses espectros políticos e você, leitor, poderá formar sua própria opinião de maneira democrática e independente.

Segundo Flávio Ramos, sociólogo político, a concentração em apenas dois lados poderia ser saudável, desde que tivéssemos um debate que girasse em torno de propostas. No entanto, a estreiteza do discurso político é evidente. As opiniões tornaram-se objeto de histeria coletiva e os debates nas redes sociais comprovam isso. “Não há respeito pela posição das pessoas e as agressões virtuais se proliferam. Não estamos num bom momento eleitoral”, destaca.

O sociólogo define quem é de esquerda ou direita a partir da consciência que as pessoas têm sobre a importância do Estado. Quem se identifica com menor grau de intervenção do Estado na economia e na sociedade, tende a aceitar os postulados da direita. Quem defende uma participação maior do Estado, tende à esquerda.

O que a Direita pensa sobre isso?

De acordo com Fernando Fernandez, professor de Direito da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) – persona que se considera de direita -, é preciso, no primeiro momento, levar em consideração que teoricamente existem duas forças antagônicas e que esse antagonismo está no campo das ideologias. A questão de esquerda e de direita, ideologicamente, é algo superado há muito tempo.

“Neste momento, pelo menos no nosso país, noto que há uma luta feroz e impiedosa pelo poder. Da maneira como as coisas estão caminhando e como está deteriorando a nossa sociedade, a disputa é pelo cofre. Quem chega perto do cofre de uma maneira ou de muitas, acaba extorquindo ele.  Então isso não pode ter nada de saudável”, aponta.

Não existe hoje, no Brasil, absolutamente nenhuma disputa ideológica séria. O que persiste é uma proposta da direita, que propõe muita liberdade e pouca igualdade; e outra, vinda do lado da esquerda, sugere muita igualdade e pouca ou nenhuma liberdade.

“Hoje temos que fazer essas escolhas, é a realidade, é um ponto desagradável em que chegamos. Não que tenhamos que permanecer. Temos de encontrar uma terceira via e elaborá-la.”, define.

De acordo com o professor, isso reflete da pior maneira possível em nossa sociedade, por dividir os brasileiros. Há diversas divisões: propostas de homofóbicos contra homossexuais, de homens contra mulheres, de pessoas do Sul e  Sudeste contra nordestinos, de brancos contra negros, de ricos contra pobres e assim consecutivamente.

Na visão de Fernando, hoje não se vê o brasileiro debater os reais problemas do país, e sim questões de menor importância. “Ninguém tem na prática um plano objetivo para a administração pública. De um lado, tem o que se convencionou a chamar de liberalismo, neoliberalismo e assim por diante. Um liberalismo exacerbado, estado mínimo, que é a maneira mais simples de resumir. Do outro lado, a proposta é socialista, que sabemos que não deu certo em lugar nenhum do planeta”, diz.

O que a Esquerda pensa sobre isso?

Nahor Lopes, filósofo, se define como socialista democrático, no espectro político de esquerda. Seu raciocínio é baseado no  socialismo utópico e ele acredita na viabilidade da concepção tecnocrata mesclada com igualdade de oportunidades. Também defende veementemente a democracia como instrumento gerador de justiça e igualdade para os cidadãos.

“A rixa entre dois movimentos ideológicos de política é saudável em partes. O debate político é excelente em uma democracia, mas a polarização enfurecida de ideias é sinal que a própria democracia precisa se reinventar. Democracia, ao contrário do que todos pensam, não é o governo de tudo, mas o governo para todos”, pontua.

Na realidade, historicamente, as mudanças do país sempre estiveram nas mãos de elites: a independência, no pensamento de um príncipe descontente que queria ser rei e seus amigos da Maçonaria; a república, com militares e fazendeiros; a revolução de 30, as oligarquias de 3 estados; o golpe de 64, os empresários e os militares. As mudanças no país não tiveram rixas, mas ecos da “Casa Grande”.

Nahor indica outra questão: existe uma tradição muito personalista e pouco ideológica na escolha dos candidatos. O debate fica empobrecido, pois as opiniões que as pessoas possuem sobre as ideologias políticas são, em boa parte, empíricas e pouco embasadas em seus fundamentos teóricos.

“Hoje é possível encontrar uma situação dramática. Em vez de debaterem Locke, Adam Smith, Rousseau, Proudhon, Marx, eles xingam-se. As pessoas usam a política para legitimar a barbárie e seus preconceitos. Note que até o mercado financeiro age assim: quando os empresários não gostam de um determinado governo, enfraquecem a Bolsa. Isso é lamentável”, garante.

E há outro fator: o ano de 2013 não acabou. As pautas cidadãs que as pessoas colocaram nas ruas não foram atendidas. Os políticos profissionais não conseguiram – ou não quiseram – escutar as vozes.

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O esquerdista afirma que os posicionamentos da direita, tanto o liberalismo quanto o conservadorismo, tendem a valorizar demais o indivíduo e enaltecer a meritocracia. Muitas vezes, existem tendências selvagens de domínio e nisso também o socialismo utópico se diferencia, pois não é possível ter meritocracia em uma sociedade desigual desde os primórdios. É necessário igualar as oportunidades.

Nahor não considera que seu lado seja o único e ideal para o contexto social brasileiro, pois criou uma concepção aberta sobre isso. “Há diversos modos de chegar a igualdade social, e pode ser que o socialismo não seja esse caminho. É uma forma de cientificamente pensar a possibilidade do erro e melhorar, em uma visão popperiana[¹]. Mas penso, nessa concepção, estarem muitos elementos como, principalmente, a justiça social e a redistribuição da renda de forma justa aos cidadãos”, comenta.

[1] Karl Popper prioriza o aspecto metodológico no desenvolvimento científico.

Apesar do filósofo valorizar a liberdade política e de expressão, existem ideias do outro grupo consideradas inviáveis por ele. Algumas delas são a meritocracia e a individualidade extrema, caracterizadas como um erro social, que precisam  ser corrigidas, caso contrário abrirão ainda mais o campo para preconceitos e perseguições contra as minorias.

Atualmente, o Brasil pode ser considerado mais de Esquerda, Direita ou Centro?

Para Fernando Fernandez, o representante de direita desta reportagem, o Brasil não tem uma vocação política mais de esquerda ou de direita. O Brasil está sempre atrás de um guia. Desde Getúlio, o país continua atrás de um grande líder, no sonho de que alguém que resolva nossas mazelas.

“O brasileiro precisa amadurecer e se tocar que nossos problemas somos nós que temos que resolver, não temos que encomendar a solução a quem quer que seja. Temos que ter seriedade, responsabilidade: se esse pessoal não presta, temos que dar as costas a eles”, pontua.

Em partes, Nahor possui um pensamento parecido. Para ele é difícil definir se nosso país pode ser considerado mais de esquerda ou de direita, pois nunca tivemos uma educação política correta sobre isso. O filósofo diz que a maioria de nossos governos foram de direita, mas a população não saberia dizer as características desse espectro político. “Tivemos experiências nacionalistas, sociais-democratas e socialistas. Gilberto Freyre dizia que a grande característica do povo brasileiro é a miscigenação: penso que não só de cor, mas de ideias”, declara.

Quando se fala em Centro, Fernandez é da opinião que ele é o lugar onde as pessoas preferem estar no planeta. No Centro, em tese, estaria o justo. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Nele estariam os meios termos, que poderiam agradar e desagradar a grande maioria da população.

Se é que o Centro existe, Nahor reconhece que, na realidade, encontram-se vários posicionamentos políticos. Não podemos ficar só nas opções esquerda e direita pois a ciência política é muito ampla. O anarquismo, o nacionalismo, a doutrina social da Igreja (subsidiariedade), não se encaixam em nenhum lado, por exemplo.

A política ensinada através da educação

Muito se discute sobre ensinar a política nas escolas e entrar em debate até mesmo a “escola sem partido”. Mas, para Fernando, a educação cívica é fundamental. A ausência dessas discussões desde cedo traz a falta de noção sobre a realidade do país e é considerada uma das principais causas das coisas que acontecem, mas ainda existem ressalvas.

“Não acredito que, se perguntar para qualquer pai se ele está mandando o filho para a escola para ser doutrinando politicamente, ele vá concordar com isso. Temos que amadurecer bastante esse aspecto para se ter uma matéria que possa falar algo a respeito. O que acho que tem que voltar é a educação cívica e moral”, afirma.

A questão vai muito além da simples proposta já apresentada. “O amor pelos símbolos pátrios, pela pátria ou pelo que eles podem representar é muito fraco. Está faltando um banho de civismo”, completa ele.

Em contrapartida, Nahor acredita que os temas políticos encontram-se diluídos nas disciplinas de História, Filosofia e Sociologia, além de algumas leituras na Língua Portuguesa. O complemento ideal, para ele, seria ensinar a Constituição Brasileira para esclarecer não apenas os temas políticos e cidadãos, mas também os direitos fundamentais.

A democracia oferece espaço para que múltiplas vozes sejam ouvidas. O que as pessoas esperam para o futuro precisa ser pensado dentro de princípios democráticos. Esse conjunto de ideologias e essa separação vêm a partir de grupos de pessoas que possuem um objetivo em comum.

Menosprezar as ideias de grupos opostos não só desvaloriza o ideal do grupo a que se pertence, como também transparece a imagem de um indivíduo intolerante. Na democracia, o governo é de todos para todos. É necessário pensar na democracia sob a perspectiva de pluralidade de ideias e organizações.

Então, de que lado você está?

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